Resíduos líquidos da produção de óleo de palma e de cana-de-açúcar, combinados com lodo de esgoto, podem ser transformados em biometano por uma tecnologia brasileira que acaba de demonstrar operação bem-sucedida em escala piloto. O projeto foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em colaboração com a Petrogal Brasil.
Ao longo de três anos, os pesquisadores desenvolveram uma unidade flexível capaz de trabalhar com diferentes resíduos. A estratégia busca resolver um desafio importante para o biometano: garantir oferta de matéria-prima ao mesmo tempo em que resíduos que exigiriam tratamento ganham uma nova finalidade.
Como resíduos se transformam em combustível
O biometano é obtido a partir da purificação do biogás produzido pela decomposição de matéria orgânica sem presença de oxigênio. O processamento remove componentes indesejados e aumenta a concentração de metano até que o combustível atenda às especificações para diferentes aplicações.
No projeto, efluentes de cadeias agroindustriais e lodo de esgoto deixam de ser tratados apenas como passivos e entram como matérias-primas. A lógica se aproxima da economia circular: um resíduo de um processo passa a alimentar outro.
Tecnologia chegou ao nível TRL 6
Os testes atingiram o nível de maturidade tecnológica TRL 6. Essa classificação indica que o sistema já avançou além de experimentos básicos de laboratório e teve seu funcionamento demonstrado em escala piloto.
Chegar a essa etapa não significa que a tecnologia esteja pronta para implantação comercial imediata. O resultado permite, porém, avaliar o desempenho em condições mais próximas de uma aplicação real e identificar ajustes necessários antes de aumentar a escala.
Biometano pode substituir gás natural
Depois de purificado dentro das especificações regulatórias, o biometano possui características que permitem seu uso em aplicações semelhantes às do gás natural. Ele pode ser destinado ao transporte, a instalações industriais e comerciais ou servir como insumo para outras cadeias de combustíveis renováveis.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis atualizou em 2026 as especificações nacionais do produto. O combustível também pode ser transportado comprimido em caminhões ou, após liquefação, na forma de Bio-GNL.
Diversificar matéria-prima é parte do desafio
Uma instalação que dependa de apenas um resíduo pode enfrentar variações de disponibilidade ao longo do ano. A unidade desenvolvida pelo projeto foi pensada justamente para receber materiais de origens diferentes.
No caso da cana, resíduos e efluentes já fazem parte de pesquisas e projetos de produção de biogás e biometano. A palma também gera materiais com potencial energético, especialmente em regiões produtoras. O uso combinado pode ampliar a flexibilidade operacional.
Próximo passo é aproximar a tecnologia da escala real
A demonstração em escala piloto funciona como uma ponte entre a pesquisa de laboratório e aplicações maiores. Novas etapas precisam avaliar custos, disponibilidade regional dos resíduos, logística, estabilidade do processo e qualidade final do combustível.
Além de ampliar a oferta de energia renovável, o modelo pode criar valor para materiais que hoje precisam ser tratados ou descartados. A viabilidade econômica, entretanto, dependerá das características de cada cadeia produtiva e da distância entre a geração dos resíduos e a unidade de processamento.
Foto ilustrativa de produção de biogás. Crédito: Wikimedia Commons.








