Ferramentas digitais adaptadas à rotina de comunidades ribeirinhas de Breves, na Ilha do Marajó, estão ajudando produtores a melhorar o manejo de açaizais nativos e a produtividade. Resultados acompanhados pela Embrapa mostram aumento da produção, uso de abelhas nativas na polinização e adoção de aplicativos que funcionam mesmo com conectividade limitada.
As ações fazem parte do Semear Digital, projeto coordenado pela Embrapa Agricultura Digital e financiado pela Fapesp. Breves representa o bioma Amazônico entre dez Distritos Agrotecnológicos usados como ambientes de pesquisa e aplicação de tecnologias para pequenos e médios produtores.
Aplicativo orienta manejo do açaizal
Uma das ferramentas usadas é o Manejatech-açaí, aplicativo desenvolvido para apoiar o manejo de mínimo impacto de açaizais nativos. A tecnologia substitui parte dos registros em papel e auxilia o produtor a organizar informações necessárias para decisões no campo.
Na comunidade de Jupatituba, os ribeirinhos também tiveram acesso à plataforma Infobee, voltada à meliponicultura. O serviço recebeu recurso de voz a pedido da própria comunidade, ampliando o acesso para pessoas com dificuldade de leitura.
A possibilidade de utilizar ferramentas sem conexão permanente é especialmente relevante em áreas onde o acesso à internet pode ser instável. A adaptação da tecnologia ao contexto local foi apontada pelos pesquisadores como um dos fatores para a adesão.
Produção cresceu na entressafra
A avaliação do projeto identificou que a produtividade dos açaizais chegou a triplicar na entressafra. O uso de abelhas nativas como polinizadoras também foi associado a incremento de até 30%.
Um exemplo registrado na comunidade de Santa Isabel mostra a mudança em escala familiar: uma produtora relatou que a produção semanal passou de cerca de 20 latas para uma faixa entre 30 e 40 depois das capacitações relacionadas ao manejo do açaí e às abelhas.
Os resultados não devem ser interpretados como garantia de aumento idêntico em qualquer propriedade. Condições ambientais, densidade do açaizal, manejo e outros fatores interferem na produtividade.
Drones devem entrar na próxima etapa
O projeto pretende ampliar o uso de sensoriamento remoto para estudar a capacidade produtiva dos açaizais. Uma das frentes previstas envolve drones para mapear áreas e identificar diferentes condições de manejo.
Com essas informações, pesquisadores esperam melhorar estimativas de produção e apoiar o planejamento das famílias. A combinação de conhecimento local e dados obtidos por sensores pode ajudar a identificar áreas com maior necessidade de intervenção.
Impactos vão além da produção
As avaliações também apontaram efeitos sobre biodiversidade, segurança alimentar e diversificação de cultivos. O uso das ferramentas digitais estimulou jovens a participar do gerenciamento da produção, atividade que antes era realizada principalmente em papel ou sem registros sistemáticos.
Uma cooperativa visitada pelo projeto, com cerca de 100 associados, também utiliza outras tecnologias sociais, como sistemas integrados de produção e fossa séptica biodigestora. Mulheres da comunidade participam de atividades de processamento de frutas e gestão financeira.
Tecnologia precisa se adaptar à comunidade
A experiência no Marajó reforça que digitalização rural não depende apenas de disponibilizar um aplicativo. Ferramentas precisam funcionar nas condições reais de conectividade, considerar o conhecimento de quem produz e oferecer formas acessíveis de interação.
O Semear Digital atua em dez municípios distribuídos pelos biomas brasileiros. Os locais funcionam como laboratórios vivos para testar tecnologias da informação e comunicação voltadas ao aumento de produtividade e à inclusão digital de produtores rurais.
Imagem do aplicativo Manejatech-açaí. Crédito: Embrapa.








